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16-09-09

Permalink 05:05:36, by FCS Email , 982 words   Portuguese (PT)
Categories: Bloco




O “Kalash” é o Kalashnikov, um bloco do sector da Peninha e o mais emblemático de toda a serra. Um marco pioneiro que divide a história do bloco em antes e depois. A referência, o graal dos blocos, a essência do movimento, a pérola granítica deitada aos porcos da floresta, local de peregrinação dos fracos, orgulho dos fortes, mito, sonho, pesadelo, monstro criador de tendinites, devorador insaciável de pele, mastodonte-rei no meio da clareira, dinossauro petrificado, deus e demónio de todas as invocações e imprecações. Para o subir quantos escaladores não terão já vendido a sua alma? …

No Inverno de 1999-2000, o kalashnikov passa de sonho nebuloso a bloco escovado e vítima de assédios incessantes. É por essa altura que nasce em Sintra a febre do bloco pelo bloco, em vez de ser apenas diversão e resultado de visitas ocasionais, como antes era a prática do bloco, passa a ser agora uma actividade com os seus próprios seguidores e fanáticos. Em 2001 este bloco passa de projecto a cruz de encadeamento no caderninho do Frederico Silva, mais conhecido por “Fred” e por ter sido talvez o primeiro a quem os blocos tiraram o sono. Em 2002 seguem-se os repetidores seguintes, o Leopoldo Faria “Leo” e o Ricardo Alves “Macau”, outros dois que perderam também o sono, sendo de destacar o último que continua sem dormir desde então. A partir daí a serra foi sendo cruzada a pente fino e os fanáticos foram-se multiplicando e as novas zonas foram surgindo: Malveira, Pedra Amarela, S. Pedro de Sintra, Meca, Albarrasintra e a vasta Tapada. A variedade geológica da serra confere a cada um destes sectores particularidades muito distintas, havendo blocos para os reis das regletes, dos aplates, dos buracos ou dos mantels.

Hoje em dia já existem cerca de 600 blocos abertos na serra. Muitos deles foram arrancados ao mato à custa da famosa e terrorífica catana do Macau, que anda sempre com ela como o Crocodile Dundee. Há que estar atento, pois, como ele diz, “um bloco pode saltar-te do mato a qualquer instante!” e a ele nunca os blocos o apanham de costas, sozinho já despachou uns quantos, como o Dinossauros (7c+ da Malveira), o Supa Hiro ou o Solaris (7c+ de Albarrasintra). Só lhe falta apanhar a maior das bestas da serra, “O Mito”. Este animal tem que se lhe diga. Era conhecido desde há quase 20 anos, numa altura em que os escaladores apertavam durante 5 minutos e se não progrediam, o bloco era declarado impossível e seguiam para o próximo. Foi então registado como curiosidade monolítica, pequena demais para se escalar com corda! Mais tarde, quando nasceu a era do bloco, logo se começou a falar de que havia na serra um bloco extraprumado, potencial rei da dureza. Puseram-lhe a cabeça a prémio e durante anos foi procurado em vão, tornou-se uma lenda, chamaram-lhe o Bigfoot dos blocos, o Yeti de Sintra, a abominável criatura da serra. Houve escaladores que juraram tê-lo visto, largaram tudo e dedicaram a sua vida a encontrá-lo. Com o passar do tempo, o mito ultrapassava todas as imaginações, era o bloco de ouro perdido e nele tudo era perfeito. Mas a serra parecia que o tinha engolido. Quando apareceram as novas tecnologias e o googleearth começou a ser tão importante para o escalador de blocos como as suas escovinhas maricas, o mistério foi desvendado.

A altas horas da noite, frente a um computador, umas manchinhas brancas na fotografia de satélite eram registadas como ponto de interesse a verificar no terreno. No dia seguinte a besta foi encontrada. Puseram-lhe uma grilheta e fizeram dele um animal de circo, todos vieram vê-lo, agora já diminuído na sua grandeza mitológica. Morria a lenda e nascia o projecto. Em 2008, a fera, já amansada por um cativeiro permanente, recebeu o golpe final e sucumbiu às mãos do vincador implacável, Leo o tomba-mitos. Seria a primeira proposta de 8a da serra no sector Albarrasintra.

Mas voltemos a seguir e a ouvir o bando de escaladores que agora se encontra sentado nos seus crash-pads com o enorme bloco do Kalash, mudo e imutável, como pano de fundo. Uma nuvem de nevoeiro ou fumo por cima das suas cabeças faz deles personagens de um teatro de sombras chinesas. O herói de Shaolin lamenta-se:

- Este bloco é titânico… arrasa-me… estou todo tipo mola… salto sempre a pôr o pé no buraco que não se vê… Já terei barbas quando riscar a minha lista toda…
- A tua lista?
- Sim, tenho uma lista dos meus blocos top-ten preferidos…
- Ya, muito cool! Isso dá uma discussão quase tão boa como a dos graus dos blocos. Conta aí.
-Na Peninha: Kalash, Karma da serra, Gripless. Nos Capuchos: Tecto, Megagrip e Spetznaz. Na Meca: Incha-lá, Ninho de Cucos, o mito. Em S. Pedro: O dia da Besta, viúva negra, Viagem astral. E na Tapada: Diamante Branco, Bafo de dragão, Arca de Noé…
- E o tio Patinas na Malveira é dos melhores também.
- E o pior bloco da serra? Já pensaram nisso? Qual será?
- Talvez o “Cú de chumbo” nos Capuchos… Um calhau com 1 metro de altura! Numa sanita acho que abria um bloco melhor que aquele!
- Ei? Trouxeram os frontais? Que tal irmos apertar numa night session?
- Cool! Onde vamos?


E lá foram eles pela noite dentro de frontal na cabeça como ciclopes furiosos à procura dos seus Ulisses petrificados. E quem quiser continuar a seguir o percurso destes escaladores é procurá-los nas fotografias destes blogues:

http://fanaticosdarocha.blogspot.com/
http://bouldersintra.wordpress.com/
http://brunoplim.wordpress.com/
http://nortebouldering.wordpress.com/

15-09-09

Permalink 08:28:04, by FCS Email , 750 words   Portuguese (PT)
Categories: Bloco




Vai caindo a noite na serra. As sombras vão crescendo sobre o chão atapetado de uma manta morta feita de húmus, folhas e musgos. Em cada recanto, a luz e as trevas vão travando pequenas batalhas mortais. A luz vai defendendo como pode as últimas muralhas do dia e as trevas vão montando o seu cerco com os primeiros engenhos da noite. Acompanhando esta cíclica encenação bélica, ao som e ao sopro de cada brisa, as sombras vão dançando coreografias fantasmagóricas, talvez para uma plateia oculta de sátiros e faunos. E então, ao vermos o círculo branco lunar triunfar por entre as nuvens, recordamos o outro nome desta serra nascido do fundo dos tempos: Promontório da Lua!

No entanto, enquanto a escuridão ainda é apenas um manto negro retalhado de muitos farrapos de luzes trémulas e a rainha branca da noite consente o lusco-fusco, ouvem-se algumas vozes abafadas pelas árvores e penedos, como se a própria natureza as pretendesse silenciar. Junto a um amontoado de pedras enormes, sob um bosque de velhos ciprestes cobertos de musgo e heras, reúnem-se uns quantos vultos de mãos esbranquiçadas. Em volta de uma pedra maior vão desenvolvendo um estranho ritual. Mergulham as mãos num saco de onde sai uma nuvem de pó branco e retiram-nas, inspeccionando bem cada dedo para garantir que nem um milímetro de pele cor-de-rosa está à vista. Depois, ora um, ora outro, vão colocando-se sobre um pequeno colchão na base do bloco de granito e sentam-se em silêncio. Percorrem os olhos pelas manchas brancas que aqui e ali marcam as saliências da pedra que se ergue na sua frente.

De que se trata? De um culto pagão a deuses litosféricos? De artistas pós-modernos de pinturas rupestres? Pela ansiedade e desassossego com que contemplam o cimo desse bloco, será talvez um ritual mágico de levitação.

Até que por fim, um deles, musculado como um guerreiro de Shaolin, coloca as mãos sobre a pedra. Concentração absoluta, todos os nervos tensos, toda a energia canalizada para um movimento. As suas costas transformam-se e pequenos monstros parecem querer sair-lhe das entranhas. Já em transe, treme convulsivamente. Mas levitar nada. Alguma coisa falhou na magia ou talvez os deuses sejam desfavoráveis…

- Foda-se pá! Isto é impossível! Só mexo os olhinhos! Esta reglete não existe!
- Estás a colocar mal o calcanhar. O joelho tem que estar virado para fora!
- Estou a dizer-te. I-M-P-O-S-S-Í-V-E-L !!! Hoje não é o dia. Já não tenho dedos p’ra isto.
- Karma pá, dá-lhe mais um pegue... É preciso Karma para o “Karma da Serra”…

Afinal, não se tratavam de acólitos de uma seita satânica, nem de ocultistas negros veneradores do pó branco, eram apenas um outro tipo de fanáticos, adoradores da pedra perdida, adeptos da força inútil, aspirantes ao Nirvana petrificado, seguidores da trepa perfeita. Maltrapilhos mentais da sociedade urbana e reis-filósofos da harmonia do gesto. Enfim, escaladores de bloco! Mas vamos observá-los um pouco mais de perto e ouvir o que dizem. Afinal, nada melhor do que obter informação através dos locais para se ficar a conhecer a história, os principais actores e os melhores e piores blocos da serra.

Enquanto arrumam as suas tralhas, escovas de dentes e escovas de aço, panos e paninhos, sacos de magnésio gigantes, amostras de mochilas, tapetes e carpetes, a conversa vai continuando animada:

- Vamos embora! Ainda temos tempo de ir ao Kalash, acho que é mais fácil que este.
- Mais fácil os tomates pá! O Jerry Moffat estrebuchou que nem um porco quando lá foi!
- ‘tá bem, mas o Ben Moon passeou-se!
- Passeou-se!? Tremia como uma Maria!
- Quando é que foi isso?
- Há uns anos, quando esteve cá aquele gajo do Jingo Bingo Badjobbly guides.
- Ah, já sei! O gajo que anda a gamar croquis pelo mundo!
- De qualquer maneira o gajo impressionou quando abriu o “Gripless”. Olha o tempo que demorou a ser repetido. E encadeou sem truques nem pezinhos na aresta.
- Sim, mas o Kalash está um furo acima. Nunca na vida será 7b+.
- 7b+, 7c ou 7c+… os blocos só deviam ter duas cotações: cagada ou impossível, ou fazes ou não fazes!

Permalink 08:06:31, by FCS Email , 277 words   Portuguese (PT)
Categories: Bloco




Há 80 milhões de anos atrás a barriga ardente de um pequeno monstro vulcânico gerava nas suas profundezas, invisíveis massas de rochas magmáticas... Estávamos em pleno Cretáceo Superior e faltava ainda deixar actuar as lentas mãos da erosão sobre a inútil cobertura sedimentar que mantinha enterrado esse futuro tesouro de blocos ígneos. E foi o mesmo passar do tempo que nos crava rugas na face que foi talhando os vales apertados, esculpindo os amontoados de penedos e afeiçoando-lhes as formas ao sabor do vento. O resultado é uma pequena serra de montes caóticos de granito, cobrindo 5 por 10 km, que se estendem de Este para Oeste, até chocarem abruptamente com as águas do Oceano Atlântico formando as altas escarpas do Cabo da Roca. A diversidade petrográfica da serra traduz-se não só em granitos, mas também em sienitos, gabros, traquitos e traquiandesitos…

Mas basta de enfadonha ciência! Quando cai o nevoeiro que sabe a ciência desta serra? Aqui tudo é mistério e o silêncio das grandes pedras revela-nos mais que todos os compêndios de geologia. Sabem mais as mãos que percorrem e agarram todas essas pedras que qualquer análise cristalográfica feita em assépticos laboratórios. Aproximemo-nos então da serra, por essas horas ao fim do dia em que tudo morre e nasce, para compreender as palavras do poeta que por lá passou e bem a pressentia:

“Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,

Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho,ou na estrada da vida...”

14-09-09

Permalink 08:52:02, by FCS Email , 212 words   Portuguese (PT)
Categories: Bloco

Saiu neste Verão um artigo sobre bloco na Serra de Sintra na revista espanhola CampoBase (nº66 de Agosto). As fotografias dispensam elogios já que são todas do Ricardo Alves (Macau) e o texto foi o que se arranjou entre umas tardes a blocar nos calhaus da serra, uns copos de vinho do Porto e umas trocas de e-mails com alguns críticos literários de dedos talvez mais habituados às pedras que às folhas de papel e por isso mesmo mais pertinentes. De dizer também que a excelente tradução para castelhano foi feita pelos Ataídes, Francisco e Carolina.

Como a maior parte dos escaladores não teve acesso à revista vamos colocar aqui o artigo na sua versão original, aliás, até numa versão um pouco aumentada, pois a versão publicada foi orientada para um público mais… mais… enfim, mais castelhano ou matreco. De qualquer maneira, para fazer render o peixe e para não vos atirar de uma só vez com o texto inteiro, vamos colocando o artigo por partes.

Nota: antes de iniciarem a leitura é favor desligar o fast food consumption mode, pois encher os olhos como se fossem um bandulho lírico nunca foi o meu objectivo ao escrever sobre Sintra.

28-08-09

Permalink 06:44:29, by Ricardo Alves Email , 348 words   Portuguese (PT)
Categories: Bloco

Hoya- Moros revela-se uma excelente opção para blocar no pino do Verão e uma vez mais, em pleno Agosto, uma turminha de tugas fanáticos juntou-se neste idílico vale glaciar a mais de 2000 metros de altitude para apertar nos seus blocos amarelos florescentes.


A turminha fanática (da esq. para a dir.): Ricardo ''Wolverine Vegan'' Miguel, Mário ''CC'' Inocêncio, Rui ''Sho'' Pereira, Queirós e Luís ''Bibs'' Barbosa. A juntar Rita Silva e Ricardo ''Macau'' Alves que não estão na foto!

Foram 2 dias intensos de bloco, com muita rambóia pelo meio…



1ª banhoca logo à chegada!


Sho Pereira a mostrar como se lida com as vacas ou com os bois…

Bem, mas voltando aos blocos, aqui ficam umas fotos do FDS:


Bibs no seu projecto da viagem, que sacou no 2º dia!


Luis Alonso num dos melhores blocos que provamos, o ‘’Flautista de Cimata’’ – 7b+/c. Repetido por Macau ao 2º pegue!




Macau a encadear uma linha à direita do Flautista, o ‘’Torre de Hanoi’’ – 7c, que possivelmente é um FA! (1ª foto por Rita Silva e 2ª foto por Bibs)


Rodrigo Rodriguez a provar a mesma linha. Um dos melhores de Hoya-Moros!


Sho Pereira a desmotivar com a saída do bloco da plaquete. Aliás, ninguém o sacou mesmo…


Mário a dar-lhe na aresta 7a, que é um dos blocos que mais gosto de fotografar em HM!


Queirós no mesmo bloco, com os blocos banhados pela luz dourada do fim de tarde.


Wolverine no desfrute dos últimos raios de luz a entrar no vale!


Rita Silva a encadear um bom 6a+ do sector Pradera.


Macau a flashar um 6c+


CC apertando numas réglets pinchudas…


O possante ‘’Atila’’ – 7b+/c sob as garras do Wolverine.


Mário a dar um bom pegue no mesmo bloco, mas infelizmente a cair no último passito!


Macau flashar o Atila, com a ajuda do '’beta’’ minucioso do Mário.


Dois blocos novos que fiz, o ''Shiva'' - 7b e à esq. o ''Muna'' - 7b+.


CC a fazer um amigo nas montanhas!

Full report fotográfica AQUI!

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