Fui lá com o Fernando num excelente dia de fim de Verão. A nossa cordada, modéstia à parte, era perfeita e altamente complementar, pois juntámos o rei da segurança ao rei da precariedade. Onde um dizia “’tá bom” o outro dizia “mete mais” e a média resultava equilibrada. Começamos o dia anacronicamente pela Zabi, pois essa idade há muito que já a perdemos. E concordo que é provavelmente a melhor via de largos do Cabo da Roca (parabéns à maltinha que a equipou!).
Depois fomos ver a famosa Baía do Terror. O Fernando já a conhecia, por isso eu ia com um habitué. Mesmo assim o terror fez-me companhia desde o largo zero, que é o acesso de III grau à base da “Realidade separada”, uns 25 m húmidos em rocha fantasma, ou seja, olhas e está e depois olhas e já não está.
O 1º largo não tem nenhuma chapa e ainda bem, pois se tivesse eu tinha baixado dela! É um larguito tenso de 30 m com talvez uns bons 10 m de rocha bem sólida. O sólido não está é todo junto, vai aparecendo aos bocados pelo largo acima. Provavelmente é apenas 6a mas como te podes aleijar se caíres, o 6b+ fica-lhe bem. O Fernando agarrou uma presa (um bocado de pedra sólido) que tinha o meu magnésio e se tivesse a boca aberta tinha-a comido. Como o capacete não era de mota levou com ela nos queixos.
O 2º largo é uma realidade separada. São 10 m de fissura Yosemitica que Deus pôs ali para podermos brincar à vontade com os amigos. Quanto ao grau, 7b os tomates!
O 3º grau volta a ser bom e desfruteiro à grande. A meio do largo tem um caixão horizontal que abana e chegamos lá com mãozinhas de lã e um friend 2 m abaixo dos pés. Ao princípio mal tocamos no caixão… depois olhamos em volta e percebemos que não há outro caminho, é preciso subir para cima dele! É lindo! Pomos um friend na fissura atrás do caixão na parte que abana menos e ala para cima dele esperando que ele não se abra para nos engolir! Muito bom. Quanto ao grau não sei, é melhor perguntar a uma agência funerária. Eu não percebo muito de caixões.
Ei! Mas não fiquem com a ideia errada. É 5 estrelas, uma realidade separada mesmo.
Viva!
Neste espaço vou dar a conhecer o que ando a fazer relacionado com a escalada, dando especial atenção às vias e zonas menos conhecidas.
Este verão, cansado e lesionado de vários meses a esforçar-me na escalada desportiva, fui procurar outros desafios em vias mais fáceis mas psicologicamente e tecnicamente mais exigentes. Dediquei-me à escalada clássica em granito uma realidade um pouco diferente da desportiva em calcário.
Foram três as zonas por onde andei, Serra da Estrela, Sintra e Cabo da Roca, em qualquer uma delas encontrei grandes pérolas que muito raramente são escaladas. Vou escrever um post para cada uma das zonas.
Cabo da Roca
O Cabo da Roca com as suas enormes escarpas para o mar é uma zona agreste onde normalmente sopra um vento forte e o mar é batido. Existem dezenas de pequenos sectores dispersos, com algumas vias desportivas e muitas clássicas. As condições são difíceis, abundam as vias sujas, é comum estarem húmidas, os acessos são difíceis e as bases também não são as mais confortáveis. Talvez por todas estas dificuldades a escalada lá seja tão especial e recompensadora.
No Cabo da Roca prefiro passar bons dias de sol de Inverno do que escalar com o calor e humidade do Verão. Apesar de não ser a época ideal para a maioria dos sectores, existem várias vias excelentes para aproveitar os longos finais de tarde dos maiores dias do ano e normalmente o vento faz com que a temperatura até seja agradável.
Aqui fica uma pequena descrição das três melhores vias que fiz este Verão nesta zona:

Filipe no 2º largo da Zabi a Idade da Inocência - foto by Fernando
Zabi a Idade da Inocência – situa-se na Baía Estreita, época ideal é o Verão pois é uma baía muito húmida e no inverno apanha pouco sol. 60 metros, três largos, 6c+, 6c e 7b. Metade friends metade pernos, reuniões equipadas embora a segunda tenha só um perno. O grau está rijo, a rocha é de boa qualidade e está limpa. Falando de vias completas, ou seja tendo em conta todos os largos, para mim esta é uma das melhores linhas do cabo da roca. Acho que fiz a primeira ascensão em livre, mas parece que antes de mim pouca gente lá meteu os pés! Foi aberta pelo Roxo.

Nuno no 1º largo da Caracol Aterrorizado - foto by Fernando
Caracol Aterrorizado – Situa-se na Baía do Terror, o nome deve-se à qualidade da rocha que por vezes chega a ser aterrorizadoramente podre!. 70 metros, três largos. Mais uma via que quase nunca foi escalada.
L1 6b+ Sujo e com muito calhau pronto a sair. Não tem um único perno, como não tinha croqui não sei se escalei a linha original.
L2 6b Começa por uma rampa de terra com um pouco de rocha pelo meio, não se passa medo pois tem muitas plaquetes e acaba com um bonito diedro de rocha sólida.
L3 7b Largo de grande qualidade, sequência de bloco, passos físicos estilo muro. Rocha sólida e limpa tirando os últimos metros. Parece-me que também foi um FA e também foi aberta pelo Roxo.

Nuno no 2º largo da Realidade Separada - foto by Catita
Realidade Separada – Ao escalar a via anterior o Fernando chamou-me a atenção para uma bonita fissura que cruzava um pequeno extraprumo. Fiquei super motivado, de tal forma que no dia a seguir embora saindo tarde do trabalho, regressei à baia para martelar e escovar a tal fissura. Sai à meia-noite da parede e mesmo assim só limpei 30 metros! O objectivo era fazer desta linha uma realidade à parte na Baia, ou seja conseguir que fosse uma via limpa e razoavelmente sólida. Mais um serão de trabalho desta vez com a ajuda do Fernando e a via teima em não ficar limpa, o final do primeiro largo é um verdadeiro cancro que não sei se alguma vez ficará em condições. Nestes dois dias além de televisores mandei a baixo dois frigoríficos familiares, embora já equipe vias há alguns anos, nunca tinha visto nada assim.
Fartos de trabalhar havia que escalar a via, por falta de tempo decidimos rapelar e provar só os últimos dois largos.
L1- 20m, 6b+, exposto, no final três metros de rocha muito podre. Para a reunião é possível aproveitar um perno da via do lado. Já foi encadeado pelo Filipe. Uma boa Alternativa pode ser escalar o primeiro largo da via Terror da Baia que embora não tenha provado tem muito bom aspecto.
L2- 10m, 7b, fissura diagonal extraprumada, 5 estrelas, fácil de proteger. Fácil montar reunião com friends nas muitas fissuras existentes. Só encadeei com os friends postos.
L3- 15m, 6b+ exposto, reunião equipada, únicos pernos da via. Escalada gira mas entram poucos friends e não ficam á bomba.
Nuno no 2º largo da Realidade Separada - foto by Catita

Nuno no 2º largo da Realidade Separada - foto by Catita
Não se assustem com a linguagem hermética do post anterior! Preto no branco, o que o Mike quis dizer foi que este Blog é feito por uma maltinha (de maior ou menor miolo e músculo*) que tem mais tempo os dedos brancos de magnésio do que os tem cor-de-rosa. Por outro lado, trata-se de uma maltinha que precisa seriamente de ajuda e acompanhamento psicológico. Por isso, este blog serve também de divã para expormos os nossos problemas verticais que não nos deixam dormir horizontalmente descansados.
Se o Blog faz falta, logo se vê, consoante formos capazes de preencher o vazio que existe entre os dias que se aperta até doerem os ossos. Sobretudo, vamos tentar manter este Blog sempre em cima das presas, ou seja, mantê-lo actualizado com fotos e curtas notícias do que se vai fazendo, coisa que infelizmente falta nas dezenas de blogs de escalada que estão por aí (como o Vduro por ex.!). Se entre os quatro que aqui postam não formos capazes de manter isto actualizado, francamente, é de pendurar os gatos patrocinados e ir saltar à corda todos juntos ali para Belém ao sábado de manhã.
Quem é que posta de pescada aqui? Bom, apresento-os de rajada:
O Macau ou menos conhecido como Ricardo Alves. Toda a gente sabe quem é (excepto a Dona Petzl). O Macau é o dono de Sintra, não há calhau com mais de um metro em que ele não tenha tocado. Se há um bloco novo ele está lá, se tem musgo ele tira, se está enterrado ele cava, se é pequeno ele começa sentado, nada lhe escapa, com ou sem nevoeiro ele é o homem da catana e da escova. Cuidado com ele portanto! Outra característica deste serial-block-killer é fotografar sempre bem as suas vítimas.
O Nuno, o Pinheirinho implacável. Antigamente ninguém sabia quem ele era, agora é o amigo do Sharma, aparece nos seus vídeos (ver com muita atenção o King Lines) e repete-lhe as vias de psicobloco onde ele grita desesperado (não, não é mentira). Da Austrália à Colômbia ele esteve lá e se há lá vias, mais cedo ou mais tarde, ele vai lá estar. Antigamente também era um reconhecido fraquinho, agora vive dos rendimentos dessa fama e faz oitavos à vista. A sua frase favorita é “sou o mais fraco do rocódromo!”.
O Mike, é o careca que toda a gente conhece. De actor, a guarda-costas, a tropa de elite, ele já fez tudo. As vias têm medo dele e preferem deixá-lo encadear do que vê-lo “out of control”. A sua grande qualidade é a iniciativa e o seu grande defeito é um temperamento feito de nitroglicerina. Portanto, não abanem muito.
Eu também posto aqui. Mas não esperem grandes textos, apenas breves comentários. Com sorte pode ser que me apanhem em dias inspirados de apertanço na rocha e nos textos.
Sejam bem-vindos então e fiquem em guerra… Porque a escalada é uma guerra constante e para a paz há muito tempo debaixo da terra!
*às vezes só miolo e nada de músculo e outras, muito músculo e nenhum miolo. E por vezes até, nem uma coisa nem outra, puras lesmas que se arrastam (estes são os dias mais divertidos… para os que assistem).