Há 80 milhões de anos atrás a barriga ardente de um pequeno monstro vulcânico gerava nas suas profundezas, invisíveis massas de rochas magmáticas... Estávamos em pleno Cretáceo Superior e faltava ainda deixar actuar as lentas mãos da erosão sobre a inútil cobertura sedimentar que mantinha enterrado esse futuro tesouro de blocos ígneos. E foi o mesmo passar do tempo que nos crava rugas na face que foi talhando os vales apertados, esculpindo os amontoados de penedos e afeiçoando-lhes as formas ao sabor do vento. O resultado é uma pequena serra de montes caóticos de granito, cobrindo 5 por 10 km, que se estendem de Este para Oeste, até chocarem abruptamente com as águas do Oceano Atlântico formando as altas escarpas do Cabo da Roca. A diversidade petrográfica da serra traduz-se não só em granitos, mas também em sienitos, gabros, traquitos e traquiandesitos…
Mas basta de enfadonha ciência! Quando cai o nevoeiro que sabe a ciência desta serra? Aqui tudo é mistério e o silêncio das grandes pedras revela-nos mais que todos os compêndios de geologia. Sabem mais as mãos que percorrem e agarram todas essas pedras que qualquer análise cristalográfica feita em assépticos laboratórios. Aproximemo-nos então da serra, por essas horas ao fim do dia em que tudo morre e nasce, para compreender as palavras do poeta que por lá passou e bem a pressentia:
“Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
…
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho,ou na estrada da vida...”