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Sintra (II)

15-09-09

Permalink 08:28:04, by FCS Email , 750 words   Portuguese (PT)
Categories: Bloco




Vai caindo a noite na serra. As sombras vão crescendo sobre o chão atapetado de uma manta morta feita de húmus, folhas e musgos. Em cada recanto, a luz e as trevas vão travando pequenas batalhas mortais. A luz vai defendendo como pode as últimas muralhas do dia e as trevas vão montando o seu cerco com os primeiros engenhos da noite. Acompanhando esta cíclica encenação bélica, ao som e ao sopro de cada brisa, as sombras vão dançando coreografias fantasmagóricas, talvez para uma plateia oculta de sátiros e faunos. E então, ao vermos o círculo branco lunar triunfar por entre as nuvens, recordamos o outro nome desta serra nascido do fundo dos tempos: Promontório da Lua!

No entanto, enquanto a escuridão ainda é apenas um manto negro retalhado de muitos farrapos de luzes trémulas e a rainha branca da noite consente o lusco-fusco, ouvem-se algumas vozes abafadas pelas árvores e penedos, como se a própria natureza as pretendesse silenciar. Junto a um amontoado de pedras enormes, sob um bosque de velhos ciprestes cobertos de musgo e heras, reúnem-se uns quantos vultos de mãos esbranquiçadas. Em volta de uma pedra maior vão desenvolvendo um estranho ritual. Mergulham as mãos num saco de onde sai uma nuvem de pó branco e retiram-nas, inspeccionando bem cada dedo para garantir que nem um milímetro de pele cor-de-rosa está à vista. Depois, ora um, ora outro, vão colocando-se sobre um pequeno colchão na base do bloco de granito e sentam-se em silêncio. Percorrem os olhos pelas manchas brancas que aqui e ali marcam as saliências da pedra que se ergue na sua frente.

De que se trata? De um culto pagão a deuses litosféricos? De artistas pós-modernos de pinturas rupestres? Pela ansiedade e desassossego com que contemplam o cimo desse bloco, será talvez um ritual mágico de levitação.

Até que por fim, um deles, musculado como um guerreiro de Shaolin, coloca as mãos sobre a pedra. Concentração absoluta, todos os nervos tensos, toda a energia canalizada para um movimento. As suas costas transformam-se e pequenos monstros parecem querer sair-lhe das entranhas. Já em transe, treme convulsivamente. Mas levitar nada. Alguma coisa falhou na magia ou talvez os deuses sejam desfavoráveis…

- Foda-se pá! Isto é impossível! Só mexo os olhinhos! Esta reglete não existe!
- Estás a colocar mal o calcanhar. O joelho tem que estar virado para fora!
- Estou a dizer-te. I-M-P-O-S-S-Í-V-E-L !!! Hoje não é o dia. Já não tenho dedos p’ra isto.
- Karma pá, dá-lhe mais um pegue... É preciso Karma para o “Karma da Serra”…

Afinal, não se tratavam de acólitos de uma seita satânica, nem de ocultistas negros veneradores do pó branco, eram apenas um outro tipo de fanáticos, adoradores da pedra perdida, adeptos da força inútil, aspirantes ao Nirvana petrificado, seguidores da trepa perfeita. Maltrapilhos mentais da sociedade urbana e reis-filósofos da harmonia do gesto. Enfim, escaladores de bloco! Mas vamos observá-los um pouco mais de perto e ouvir o que dizem. Afinal, nada melhor do que obter informação através dos locais para se ficar a conhecer a história, os principais actores e os melhores e piores blocos da serra.

Enquanto arrumam as suas tralhas, escovas de dentes e escovas de aço, panos e paninhos, sacos de magnésio gigantes, amostras de mochilas, tapetes e carpetes, a conversa vai continuando animada:

- Vamos embora! Ainda temos tempo de ir ao Kalash, acho que é mais fácil que este.
- Mais fácil os tomates pá! O Jerry Moffat estrebuchou que nem um porco quando lá foi!
- ‘tá bem, mas o Ben Moon passeou-se!
- Passeou-se!? Tremia como uma Maria!
- Quando é que foi isso?
- Há uns anos, quando esteve cá aquele gajo do Jingo Bingo Badjobbly guides.
- Ah, já sei! O gajo que anda a gamar croquis pelo mundo!
- De qualquer maneira o gajo impressionou quando abriu o “Gripless”. Olha o tempo que demorou a ser repetido. E encadeou sem truques nem pezinhos na aresta.
- Sim, mas o Kalash está um furo acima. Nunca na vida será 7b+.
- 7b+, 7c ou 7c+… os blocos só deviam ter duas cotações: cagada ou impossível, ou fazes ou não fazes!

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Of all the hazards, fear is the worst. - Sam Snead
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Why do psychics have to ask you for your name
15-10-09 @ 20:00
He who can –does. He who cannot, teaches.
15-10-09 @ 21:58
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I believe the most important single thing, beyond discipline and creativity is daring to dare. Maya Angelou
15-10-09 @ 22:49

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